DETALHES, IMPORTANTES DETALHES
Eu tomei um susto. Estava acostumado a andar por aquela rua calma atrás do Shopping Jardim Sul e nunca tinha visto tanto caminhão. Eles seguiam em fila indiana, carregados de areia, e obstruíam a passagem. Como a rua é apertada e tem estacionamento liberado nos dois lados, aquela carreata, lógico, ficou enroscada. Os caminhões não conseguiam manobrar, não iam para frente, nem conseguiam voltar. Estávamos todos no mesmo barco furado, caminhões e automóveis, presos num improvável congestionamento numa pequena rua do Morumbi. O impasse durou quase uma hora; no meio de um buzinaço e de muita discussão alguém teve a ideia de procurar os donos dos carros estacionados. Mais uma hora para localizar uns três ou quatro e abrir espaço na rua para as manobras. Os caminhões eram de uma construtora que está erguendo um prédio no fim da rua. Chegaram todos ao mesmo tempo e causaram um imenso transtorno para quem, como eu, prefere andar pelas ruas menos agitadas do bairro. Vale aí uma reflexão: a licença de uma obra, em qualquer parte da cidade, não deveria levar em conta o impacto que vai causar para a comunidade local? Antes de autorizar a construção, a prefeitura não deveria fazer um estudo detalhado do ambiente? Não digo só depois da obra pronta, mas falo dos efeitos causados também durante a construção.
As exigências existem, quem quer construir precisa preencher uma papelada, fazer requisições e obedecer a uma série de normas municipais. Mas está faltando prestar atenção nos detalhes que vão interferir no cotidiano das pessoas.
Me lembro da construção de um shopping center perto de casa e do barulho infernal dos operários de madrugada. Sim, a lei do silêncio foi ignorada e não adiantou reclamar. Fiz um périplo, liguei para o PSIU, que me mandou ligar para a polícia, que me passou o número 156, a central de reclamações da prefeitura. Lá consegui ser ouvido e registrei uma queixa. O shopping foi inaugurado seis meses depois e tive que conviver com as madrugadas barulhentas até o dia da inauguração. A minha queixa? Até hoje não tive resposta, deve ter virado número de um registro qualquer no arquivo de algum burocrata. Pago impostos e cumpro minhas obrigações, esse é o meu dever e de qualquer cidadão responsável. Só queria ser ouvido, ter retorno das ações do poder público. Não é pedir muito, né? Afinal, são os detalhes, que, no fim das contas, fazem a diferença.
Paulo Roberto Amaral é morador do Morumbi e jornalista da Rede Globo de Televisão, onde edita o Jornal Hoje.