QUEIMANDO O FILME DO AMOR

Quando estão com amigos ou amigas, algumas pessoas praticam o lamentável hábito de falar mal do parceiro. Como se contassem uma piada, “queimam o filme” dele ou dela, descrevendo suas mazelas, seus “defeitos” e limitações, seus desleixos domésticos, seus roncos e até certos hábitos íntimos. Não sei se essas pessoas querem apenas parecer engraçadas ou se se trata mesmo de uma ação ferina para desqualificar e diminuir, perante os amigos e amigas, a imagem daquele com quem dormem toda noite.
É difícil encontrar lógica em atitudes assim, porque se supõe que as pessoas tenham prazer e orgulho em destacar as qualidades do parceiro. Que sentido há em expor o parceiro como desastrado, infiel, incompetente, ridículo ou mal-educado? Não há lógica nem graça nessa atitude. Os amigos e amigas até podem sorrir, mas certamente o fazem para parecerem simpáticos, compreensivos ou solidários. No fundo, estarão recriminando o parceiro indiscreto e até se perguntando: “Ué, então por que continua com ele/ela?”
Sabe-se que, quando passam a morar sob o mesmo teto, é comum que os parceiros mostrem facetas comportamentais que não eram conhecidas antes. Isto porque na fase de conquista, somos todos sedutores e nos esforçamos em mostrar ao outro apenas aquilo que é cativante e atraente. Assim, ambos os parceiros criam em torno de si uma aura de “perfeição” irresistível – essa é a dinâmica natural do processo de conquista.
Com o passar do tempo, dentro do clima de intimidade e descontração que é criado no casal, os parceiros se sentem mais à vontade para assumirem suas verdadeiras características pessoais. E é nesse contexto que podem surgir alguns padrões comportamentais desconhecidos – para surpresa e às vezes até choque do outro. Desde que não sejam atitudes prejudiciais ou invasivas, e se de fato são incômodas, devem merecer diálogos sinceros, mas serenos, a respeito de como podem ser administradas essas novidades.
Não se deve amar uma pessoa apenas “por causa de”, mas, se esse amor é verdadeiro, também “apesar de”. Ninguém é perfeito e certamente o parceiro que fala mal do outro em público, também possuirá, com certeza, um razoável repertório de atitudes, que o outro também considera falhas, defeitos e limitações. E se a moda de falar mal do outro pegar entre os dois, como é que fica a situação? Cada um metendo o malho na imagem do outro perante os amigos! E assim todo o grupo fica por dentro de certas particularidades que os casais habitualmente preferem manter em segredo...
Acredito que esse mau hábito de fazer campanha negativa contra o parceiro se trate de uma distorção da afetividade, inclusive, usada como recurso inadequado para ter a atenção do grupo. Para correção desse mau hábito, o primeiro passo é ter uma boa conversa com o parceiro a respeito daquilo que o outro considere invasivo, inadequado ou incorreto. Se houver amor, essa conversa será construtiva e agregará mais tijolos para a construção de uma relação sólida.
Cada parceiro deve entender que quando alguém fala mal, desdenha ou desqualifica o outro perante as pessoas, não está apenas comprometendo ou até destruindo a imagem do parceiro, mas está destruindo a própria instituição do Amor. Está “queimando o filme” do próprio Amor. Está desfazendo tudo o que de positivo existiu um dia naquela relação. Está fazendo forte campanha negativa para que os amigos deixem de acreditar na continuidade daquilo que foi criado para ser duradouro. Pode até ser que não dure tanto, mas enquanto a relação estiver viva, o mínimo que os parceiros devem fazer é, através da discrição e do respeito, proteger a imagem um do outro. Até porque, do ponto de vista prático, mesmo que a relação venha a acabar em separação, a vida amorosa continuará para ambos – e, para isso, eles devem ser vistos como pessoas que valem a pena serem conquistadas.
Afinal, ninguém compra produtos defeituosos...
Floriano Serra é psicólogo, consultor, palestrante e autor de vários livros e artigos sobre o comportamento humano. E-mail: florianoserra@somma4.com.br
Ilustração:
Thais Narkevitz