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DAR OU NÃO DAR SATISFAÇÃO: EIS A QUESTÃO



Desde que me entendo por gente, lembro que, entre os homens, já havia essa história de não ter que “dar satisfação” à namorada ou à mulher. Isso era visto como fraqueza, medo ou submissão à parceira. Quando saíamos ou viajávamos em grupo, o amigo que cometesse a “tolice” de telefonar à parceira para avisar que já havia chegado ao destino era logo ironizado e alvo de desqualificantes gozações. Ou seja: macho que era macho não tinha que dar satisfação de nada a ninguém! E fim de papo.
Hoje verifico duas coisas absolutamente lamentáveis: a primeira é que essa primitiva e preconceituosa crença continua existindo! Nada mudou! Sem essa de ligar para a mulher ou para a namorada para informar que vai chegar mais tarde em casa porque tem serviço extra no trabalho. Aliás, há uma contradição: até pode ligar, mas só se for para informar que vai chegar tarde, sim, porque vai sair com uns amigos – e mais macho será se completar gloriosamente: “E não precisa me esperar porque não tenho hora pra chegar!”.

A segunda coisa a lamentar é que, segundo me dizem, uma boa parte das mulheres começa a agir da mesma forma – não sei se por inveja, vingança ou confronto.

Vamos conversar um pouquinho a respeito? Quando duas pessoas se unem, parte-se do princípio que se amam. E, se se amam, se respeitam, faz sentido? E, continuando na mesma premissa de que se amam, é de se imaginar que querem estar juntos tanto quanto possível e, por isso, tentam evitar a todo custo qualquer coisa que os impeça desse desfrute. Quando, por alguma razão, um dos dois parceiros necessita quebrar esse compromisso amoroso de estarem juntos, é importante, sim, que uma boa justificativa seja dada em nome desse amor bastante – repito: se é que ele existe.

Por outro lado, o parceiro que fica só preocupa-se com a segurança do outro – justamente porque o ama. Enquanto não tiver notícias, fica ansioso em saber se ele está bem. Aliás, mesmo do ponto de vista prático, é importante saber onde o outro está, como precaução para uma eventual necessidade de localizá-lo com urgência.

Veja que essas razões que estou apresentando não têm nada a ver com pedir “a bênção”, autorização ou permissão para chegar mais tarde. Nada a ver com submissão, medo ou fragilidade – e sim com responsabilidade, bom senso e compromisso. São razões que têm a ver, sobretudo, com respeito, não aquele respeito formal das hierarquias, mas aquele respeito afetuoso de quem cuida de um tesouro amado e sagrado. Portanto, não estou falando de poderes (“ele/ela não manda em mim”), estou falando de amores (“nós nos preocupamos um com o outro”).

Se os parceiros de um casal não precisam conversar a respeito dos seus mútuos atrasos, ausências, imprevistos e compromissos, tenho sérias dúvidas se estou falando de um casal de enamorados ou de dois sócios comerciais.

Ademais, essa birra infantil de não “dar satisfação” ao outro pertence à fase da adolescência, quando o quase-adulto ainda está em busca de afirmação e independência. Isso não tem lugar na relação amorosa de adultos – a menos que um dos dois ainda não tenha crescido o suficiente para assumir as responsabilidades de uma relação. A vida a dois prega a defesa da individualidade, mas também estabelece claros limites para que essa defesa não se transforme em simples egoísmo. Num casal que se ama de verdade, nenhum parceiro pode ser independente que não precise justificar sua ausência numa relação que deveria ser caracterizada pela sua presença.

Portanto, amigo e amiga, se há amor bastante entre vocês, é preciso dar satisfação, sim, à pessoa amada. Aliás, em nome desse mesmo amor, é fundamental dar um outro tipo de satisfação – essa, sim, absolutamente indispensável e permanente: aquela satisfação que decorre do prazer inesgotável de estarem juntos.

Floriano Serra, é psicólogo, autor do livro “Não Basta Amar Bastante”
florianoserra@somma4.com.br

Ilustração: Thais Narkevitz

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