ENTREVISTA com
MARCOS CINTRA


O idealizador do imposto único aponta soluções para problemas enfrentados pelas metrópoles e fala sobre o Morumbi.

O professor Marcos Cintra é titular e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas, bacharel, doutor e mestre em Economia pela Universidade de Harvard (EUA) e morador do Real Parque. Em sua mais recente publicação – “Os Riscos de São Paulo” , ele aborda questões como mobilidade, sustentabilidade, convivência e gestão. Eleito vereador na cidade de São Paulo pela segunda vez, Marcos Cintra não considera a política como uma profissão. Ele vê na atividade pública uma oportunidade para o cidadão oferecer sua contribuição à sociedade.

1) O QUE CLAMA A VOZ DO CIDADÃO?

O cidadão deseja recuperar a qualidade de vida que se deteriora rapidamente dia após dia. Deseja não perder tempo no trânsito, tempo esse que poderia utilizar para o lazer, para estudar ou ficar com seus familiares. Quer preservar seu patrimônio e sua saúde física e mental. Busca ainda que o poder público possa atuar de modo eficaz e eficiente no atendimento de suas reivindicações e não precise ser esfolado pelos tributos como ocorre hoje.

2)ATUALMENTE, NO CENÁRIO ECONÔMICO BRASILEIRO, QUEM MAIS “PAGA A CONTA”?

Quem paga a conta é o pobre que não tem serviços públicos básicos quantitativos e nem qualitativos; a classe média, que não agüenta mais recolher tantos impostos. O rico também tem que arcar com custo elevado quando sofre agressões físicas e emocionais que o meio lhe aplica e ainda através dos recursos que tem que desembolsar com serviços que o poder público poderia oferecer.

3) O QUE O SENHOR ESPERA DO FUTURO DOS ESPAÇOS URBANOS?

Se começarmos já a discutir alternativas, a comunidade paulistana começará gradualmente a resgatar um ambiente mais civilizado, com menos riscos.

4) QUAL O PAPEL DE CADA UM NA CONSTRUÇÃO DE UM ESPAÇO PARA MELHOR CONVIVÊNCIA?

Precisamos de cidadania em todos os aspectos da vida urbana, que o cidadão exerça seus direitos tendo consciência de que também tem deveres. O indivíduo deve se organizar para reivindicar e exercer pressão legítima sobre o administrador público visando o bem-estar da comunidade, mas precisa ter sempre em mente que possui responsabilidade para que a sociedade conviva de forma harmoniosa.

5) QUAL A ILUSÃO MAIS FALSA QUE VIVENCIAMOS HOJE?

É acharmos que a mesmice das medidas que serviam para equacionar problemas que nos afligem podem continuar resolvendo questões urbanísticas críticas. É preciso repensar uma cidade como São Paulo e encontrar alternativas novas que permitam encarar os novos desafios.

6) QUAL O PRINCIPAL PROBLEMA DE GESTÃO E SUSTENTABILIDADE QUE O MORUMBI PRECISA ENFRENTAR?

O Morumbi é uma região caracterizada pela heterogeneidade. Esta é uma área bastante complexa porque nela convivem bolsões de riqueza e de pobreza, e a gestão está relacionada ao modo como o poder público executa suas atribuições. Creio que a prefeitura poderia intervir na região utilizando um mecanismo com potencial para executar obras. É o CEPAC (Certificados de Potencial Adicional de Construção), que poderia financiar intervenções para desafogar o trânsito na região do Morumbi, reduzindo o tempo que se perde dentro de carros e ônibus. É um instrumento que permite à administração municipal obter dinheiro sem aumentar imposto ou gerar dívida. Em sustentabilidade, creio serem viáveis ações que enfrentem problemas relacionados à limpeza urbana e à poluição sonora em pontos do Morumbi e região.

7) DE ALGUMA MANEIRA, O MORUMBI POSSUI ALGUMA AÇÃO INOVADORA NO QUE DIZ RESPEITO À MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA COLETIVA?

O Morumbi registra uma qualidade de vida acima da média verificada na cidade de São Paulo. Sou morador do Real Parque, e as associações de moradores do bairro e região foram determinantes para que essa situação fosse alcançada. Mas há riscos que devem ser considerados para que o bem-estar na região não se deteriore. Deveríamos dar um passo adiante através de mobilização dessas associações, de forma que elas atuem de modo mais organizado para que o poder público implemente mais obras e serviços na região. O governo muitas vezes discrimina bairros como Real Parque, Cidade Jardim, Panamby, Jardim Leonor, entre outros, considerando que ações que beneficiem seus moradores é um privilégio. Isso tem que mudar! Os cidadãos dessas áreas pagam muito imposto e precisam ter uma contrapartida mais justa por parte da administração pública.

8) O QUE O FAZ SENTIR-SE DESCONFORTÁVEL?

A deterioração da qualidade de vida em São Paulo, a falta de ética na política e a inoperância dos homens públicos quanto a implementação de medidas imprescindíveis para o nosso país. Estamos regredindo e precisamos repensar nossa cidade, a vida pública e o Brasil.

9) E O QUE O FAZ SENTIR-SE CONFORTÁVEL?

É um alívio ver que há cidadãos interessados em desenvolver ações voltadas a qualificação do nível educacional do nosso povo, lutar pelo bem-estar de suas comunidades, por ética na vida pública, por eficiência na atividade produtiva e pelo fim de um sistema que impõe impostos escorchantes aos cidadãos. Essas pessoas e entidades precisam ser valorizadas em seus movimentos para que nosso país comece a sair do marasmo em que vive.

10) O SENHOR É MOTIVADO POR QUAIS SENTIMENTOS?

Como acadêmico ligado à área econômica, tributária e de planejamento urbano, tenho objetivo de contribuir com minha experiência para o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida das pessoas. E como político, considero salutar a alternância de pensamento e de profissionais de diferentes áreas em instâncias governamentais. Todo profissional com espírito público deveria, em algum momento, usar sua experiência a serviço da comunidade.

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