O que faz um médico ser diferente? Provavelmente, a paixão pelo ser humano.
Tire suas dúvidas para o segundo turno.
O amor, em essência, deve ser alegre, criativo, leve e prazeiroso.
As expectativas de moradores do Morumbi para a próxima administração municipal.
Com a palavra, a Editora.
De maneira comovente, ela narra um período decisivo de sua vida
No mês em que se comemora o Dia do Médico, Graziela Gilioli, autora do livro “O Pequeno Médico”, fala de um acontecimento pessoal: o fato inesperado de seu filho mais novo, Alexandre, em 2001, aos 12 anos ser diagnosticado portador de neuroblastoma, um tipo de câncer pouco comum. Alexandre queria ser médico e conquistou a equipe do hospital, que passou a chamá-lo de “Dr. Alexandre”. Como atravessar – racionalmente ou não – momentos em que aqueles a quem amamos deixam de existir? Graziela volta aos acontecimentos como uma maneira de revivê-los e resignificá-los. Desde o lançamento do livro, em 2007, a autora chamou a atenção dos médicos e tem proferido palestras em hospitais, universidades e empresas, além de desenvolver o projeto “Mentes Flexíveis” com o objetivo de compartilhar a idéia de que sempre temos a opção de viver de um modo em que a dimensão humana esteja mais presente.
1) O QUE O ALEXANDRE ENSINOU A VOCÊ?
O Alexandre me ensinou que a gente pode ser o sujeito da própria vida. Que temos de tentar viver da melhor maneira possível, apesar dos problemas. Quando recebemos o diagnóstico da doença, eu não sabia o que fazer, mas o Alexandre falou: “Mãe, essa doença é barra! A gente vai ter que mudar nossa vida. Eu gosto de andar de kart e de esquiar, mas agora que estou no hospital vou aprender como é ser médico”. Ele aceitou a mudança de rota e pegou sua vida com as próprias mãos.
2) QUE SENTIMENTOS AFLORARAM EM VOCÊ DEPOIS DO DIAGNÓSTICO?
Foi um sentimento que continua até hoje: de que somos muito pequenininhos, de que o ser humano é frágil e ao mesmo tempo, forte. Frágil porque não controlamos o destino de nossas vidas e forte porque o enfrentamos com coragem, seja ele qual for.
3) COMO CONVIVER COM ESTE DRAMA?
É muito difícil, muito intenso, mas ao mesmo tempo é bom porque dentro desse caos descobri que a morte faz parte da vida. Depois que o Alê foi para um outro mundo, em 2003, aprendi a ter uma vida mais rica em detalhes, curtir um sorriso mais largo ou um abraço. Paguei um preço alto para descobrir que o gostoso da vida são as pequenas coisas.
4) VOCÊ APRENDEU A LIDAR COM O INESPERADO?
Em cada situação inesperada a gente sempre tem de começar do zero. A vida é cheia de boas e más surpresas e temos de aprender a lidar com elas da maneira mais íntegra e íntima possível.
5) COMO VOCÊ CONCILIOU A CARREIRA PROFISSIONAL COM O PAPEL DE MÃE?
Eu pedi demissão para cuidar do Alexandre e quando o prognóstico apontava para uma melhora abri uma empresa de marketing esportivo que se chamava GMA. Apesar de as pessoas pensarem que era uma alusão a Gestão, Marketing e Administração, na verdade eram as iniciais de Graziela, Marcelo e Alexandre. Na época, trabalhava com meu laptop dentro da UTI e o Alexandre se divertia dando sugestões nos textos que eu escrevia, aliás, sugestões que eu sempre seguia. Dois meses depois, o prognóstico era o pior possível e eu fechei a empresa.
6) VOCÊ É UMA NOVA MULHER?
Sim, me sinto mais forte. Conviver com a dor é um aprendizado e enfrentar o dia-a-dia sabendo que há coisas bem maiores do que nossos problemas é um exercício de desapego que nos enriquece.
7) VOCÊ CHEGOU A DESCOBRIR O SENTIDO DA VIDA?
Eu não sei se descobri o sentido da vida, mas certamente aprendi que um dos sentidos da vida é a troca de afeto e carinho com as pessoas que estão à nossa volta. O bacana é a gente não economizar nessa troca e viver cada dia com disposição e alegria, independente do momento em que estejamos.
8) O QUE FOI MAIS DIFÍCIL?
Foi difícil lidar com a morte e ainda é. Eu nunca imaginei que meu caçula pudesse morrer antes de mim. Tive de aprender a lidar com a impermanência da vida. Ainda é bem difícil confortar meu filho Marcelo e explicar a ele que apesar de todos os nossos esforços, a vida, às vezes, toma rumos indesejados sobre os quais não temos nenhum controle.
9) PORQUE VOCÊ RESOLVEU ESCREVER O LIVRO?
No primeiro ano de morte do Alexandre, eu mandei rezar uma missa na Igreja São Pedro e São Paulo, que ficava pertinho da escola onde ele estudava, o Madre Alix. A missa foi às 10h30 – na hora do recreio – para que os amigos do Alê pudessem ir, e foram todos. No segundo ano, organizei uma missa linda na Igreja do Perpétuo Socorro e a igreja estava cheia de adolescentes amigos do Alexandre e do Marcelo. No terceiro ano, não fiz a missa porque pensava que era uma curtição só minha. Percebi que estava enganada porque vários colegas do Alexandre me ligaram perguntando sobre a missa. Comecei a escrever para acalmar meu coração e relembrar esses três anos longe do Alexandre. Eu não queria perder o som da risada dele nem a sensação do seu abraço demorado. Então, durante dois meses, por dez horas diárias eu escrevia. O resultado é o livro “O Pequeno Médico”, que dediquei ao Marcelo.
10) EM QUEM VOCÊ SE INSPIRA HOJE?
Desde que meus filhos nasceram eu me inspiro neles.
O Pequeno Médico
Graziela Gilioli
O Pequeno Médico