
Para participar do Dakar, tomei uma decisão que transformaria minha rotina por completo. Apesar de levar o rali como hobby, encontrei na prova um teste de sobrevivência que me trouxe experiências capazes de mudar
minha vida.
Ansiedade e calma se misturavam de uma forma inexplicável. Eu e meu co-piloto, Lourival Roldan, em Buenos Aires, demos largada no sábado, 3 de janeiro, na maior prova de resistência do mundo, o Rally Dakar, que duraria 15 dias.
A tranquilidade inicial passou rápido. No domingo enfrentamos problemas durante o trajeto. Encontrei muito “fesh fesh” (areia muito fina) que impregnou meu carro e, ainda no km 5, comecei a perder embreagem. No km 30 o sistema não suportou e a embreagem acabou totalmente. Alguns km à frente o pneu estourou repentinamente! Controlei o carro e pensei “hoje deve ser o dia de teste de resistência”. Mas continuamos firmes. Às cinco da manhã, destruídos de cansaço, chegamos.
Definitivamente, ser um estreante no Rally Dakar não é tarefa fácil. Após os problemas enfrentados com a embreagem, tivemos uma pane elétrica. Com 100 km de percurso, o carro começou a apagar. Por várias vezes, descemos, desligamos a chave geral e fizemos o veículo pegar no tranco. A dificuldade se repetiu até que o carro apagou de vez. Cheguei a pensar que não seria possível continuar.
Mas, depois de muito procurar, Lourival percebeu que o fio da chave geral havia desconectado a geração de energia. Apesar do cansaço, seguimos animados.
No dia 7, às 11h33, largamos atrás dos caminhões, ajudamos um piloto de moto chinês perdido, que não entendia uma palavra de nada, e pegamos tanta chuva que quando chegamos ao rio identificado na planilha como “rio seco”, ele estava cheio e fomos obrigados a andar dez quilômetros dentro d’água. Ao anoitecer encontramos gelo num vale assustador e difícil de sair, quase capotamos duas vezes.
Quando cumprimos o quinto dia de prova, me senti na Mauritânia, que normalmente era o trecho mais seletivo da prova nas últimas versões da competição na África. No dia 9 entramos na região do pré-Andes, parecida com o Marrocos. Foi preciso muito cuidado com os rios secos e as grandes pedras pelo caminho. Na manhã do dia 11 percorremos o trecho que levava de Valparaiso (Chile) a La Serena, uma etapa com piso duro de cascalho, curvas constantes e inúmeros abismos.
Até aqui, assisti muitas desistências e favoritos ficando pelo caminho, por isso me preparava para passar no temido deserto do Atacama, cuja temperatura pode chegar a 47ºC em alguns trechos. Foi assustador, mas muito prazeroso. Quase capotamos várias vezes. As dunas, que podem medir de 30 a 50 metros de altura, se movimentam rápido pedindo velocidade para serem vencidas. Atolamos várias vezes e passamos por carros e um caminhão capotados. Nada foi tranquilo, mas marcante mesmo foi ter que fazer os últimos quatro quilômetros de dunas no escuro e acelerando.
Os dias seguintes transcorreram cheios de aventuras e com episódios que exigiram força de vontade para serem superados. Após 15 dias de competição e 9.574 quilômetros percorridos, eu e Lourival Roldan completamos a última etapa do rali mais disputado do mundo realizado pela primeira vez fora do circuito Europa–África e considerado um dos mais duros da história.
Dos 530 veículos que largaram, apenas 268 terminaram. Ao cruzar a linha de chegada pensei que ia ter um infarto, de tanta alegria! Para participar do Dakar, tomei uma decisão que transformaria minha rotina por completo. Apesar de levar o rali como hobby, encontrei na prova um teste de sobrevivência que me trouxe experiências capazes de mudar minha vida, numa transformação constante. O próximo desafio é o Rally dos Sertões, no final de junho. Até lá!
Paulo Pichini é morador do Morumbi, empresário e competidor de ralis