UMA AVENTURA NO DESERTO

A imagem dos arredores do festival é paradisíaca, com palmeiras em todo o seu contorno. Ouvir “Walk Away” do Franz Ferdinand com o sol se pondo e aquela paisagem maravilhosa do deserto é uma emoção que muito se assemelha ao meu conceito de paraíso.


Por Rodrigo Mendonça

O que lhe falta para realizar a viagem dos seus sonhos? Fiz-me essa pergunta no início deste ano, quando divulgada a programação do Coachella Valley Music and Arts Festival. Sou apaixonado por música, rock n’ roll em especial, e há anos leio sobre os grandes festivais realizados na Europa e nos Estados Unidos. Coachella é um dos maiores. Teve início em 1999 na cidade de Indio, no meio do deserto da Califórnia, e lá permanece. Em seu line-up já figuraram as bandas mais badaladas da atua­lidade, como Oasis, Coldplay, Red Hot Chili Peppers, além de artistas consagrados como Madonna, Prince e Roger Waters, que dificilmente se apresentam em festivais. Este ano o festival comemoraria dez anos e, apesar da crise financeira que assola inclusive a indústria americana de entretenimento, preparou uma programação mais do que especial. Mais de 120 artistas se apresentando em três dias de festival. E a ‘cereja do bolo’: nada menos do que Sir Paul McCartney. A data ainda facilitaria a viagem, 17 a 19 de abril, véspera do feriado prolongado de Tiradentes, ou seja, nem sequer perder minhas férias eu precisava. Conclusão: eu tinha que estar lá.

Parto em 16 de abril e chego às 9h30 da manhã seguinte em Los Angeles, onde encontro minha companheira de viagem, Maria, o GPS com sotaque “portuga” que me conduz pelas estradas californianas. Maria não vacila e em duas horas e meia de carro chego em Indian Wells, cidade que fica a uns 12 km de Indio. Uma rápida parada no hotel e parto direto para a festa.

O clima desértico me cumprimenta com um calor de mais de 35ºC. Em compensação, a temperatura elevadíssima contribui para que belas californianas desfilem apenas de biquíni pelo evento. Minha viagem dos sonhos começa o tomar forma.

Vou a todas as tendas e acompanho, ainda que em parte, shows sensacionais. Corro para o palco principal, já ao entardecer, onde o Franz Ferdinand dá início ao seu set. Assisto ao show de Morrissey, que não esquece os clássicos do The Smiths e manda logo de cara “This Charming Man”, passando por “Girlfriend in a Coma”, “Ask”, para finalizar com “How Soon is Now?”. Atinjo um sentimento de êxtase pleno antes mesmo de Paul McCartney entrar no palco.

A presença do velho ‘Macca’ em Coachella é um acontecimento histórico para o festival. A sensação de vivenciar um momento único e especial é nítida na face das dezenas de milhares de espectadores que esgotaram as entradas da primeira noite. Dentre eles há pessoas de todas as idades, anônimos e celebridades hollywoodianas, como Drew Barrymore, Kirsten Dunst e o loiro de “Velozes e Furiosos” que eu nem sei o nome. E o show não decepciona. Clássicos dos Beatles são intercalados com sucessos da carreira solo. O telão é gigantesco, o maior que já vi, e provavelmente poderia ser visto até de Los Angeles. Paul se emociona ao lembrar de sua esposa Linda, que faleceu há 11 anos, exatamente num 17 de abril, e depois emociona a todos tocando “Blackbird” ao violão, sozinho no palco. Em “Hey Jude” o povo todo segue o famoso corinho. Com fogos e explosões, parece ser o fim da apresentação. Que nada, Paul retorna para quatro bis e emenda um clássico atrás do outro: “Let it be”, “Can’t buy me Love”, “Yesterday”, “Helter Skelter”, atingindo mais de duas horas e meia de show. Antes da última música, “Sgt. Pepper’s”, se propõe a agradecer a todos, citando inclusive países cujos fãs estão presentes. Nessa hora manda um “thank you, Brazil”. Não sei quem foi o compatriota da fila do gargarejo que conseguiu gritar o nome do país para Paul. Eu não fui, mas me senti agradecido do mesmo jeito. Fim do show. E que final, – mas é só o primeiro dia em Coachella.

O segundo dia tinha tudo para ser o pior, o que acabou vindo a se confirmar. Mas um dia ruim em Coachella não é propriamente um dia ruim. Chego às 16h, com um calor ainda infernal. Corro para o palco principal onde o TV on the Radio solta os primeiros acordes. Junto comigo chega um gordinho trajado apenas com uma sunga estilo fio-dental, tragando um cigarrinho natural. Nada contra, mas a imagem da figura não combina com a da minha viagem dos sonhos. Troco de lugar e assisto a um dos melhores shows do festival, que precedeu o do Fleet Foxes, o do The Chemical Brothers e o The Killers, que segurou muito bem a responsabilidade de fechar o segundo dia.

Com bolhas nos pés, chego mais cedo para aproveitar o dia derradeiro. Já passava das 6 da tarde e ainda estavam para se apresentar Paul Weller; The Horrors; My Bloody Valentine; Public Enemy; e claro, a atração principal da noite, The Cure. Queria ver todos, mas fico no palco principal e acompanho o excelente show de Karen O e o seu Yeah, Yeah, Yeahs. Corro para a tenda Mojave e acompanho ao The Horrors, onde recupero um pouco do fôlego para assistir ao The Kills. Era o remédio de que eu precisava. Saio da tenda antes do final porque o The Cure estava para entrar no palco principal. Robert Smith e sua trupe parecem dispostos a encerrar minha aventura em Coachella de maneira inesquecível. Tocam uma das minhas músicas favoritas, “Pictures of You”, e me levam às lágrimas. Mandam clássicos como “Lullaby” e “In Between Days”, enquanto se encaminham para bater o recorde de show mais longo, chegando a quase três horas. No último bis a banda inicia “Boys Don’t Cry” e já passa da meia-noite e meia, horário em que o festival deveria se encerrar. As luzes começam a se acender. De repente o som é cortado e a banda, sem se importar, permanece tocando só com os speakers próprios. A massa toda corre em direção ao palco e na voz ajuda o grupo a finalizar “Boys Don’t Cry”. Se pudessem acho que estariam tocando até agora. Que final sensacional. Para mim ficou a frase que Paul McCartney soltou ao encerrar a clássica “Get Back” durante o seu show: “I wanna get back”. Yeah, Paul, me too. Eu também quero voltar.



Rodrigo Mendonça é advogado e adora rock, em todas as suas versões




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