Fazendo a cabeça do Morumbi

Nos últimos anos, o Morumbi acompanhou o surgimento constante de salões de beleza. A pedido de Dolce, o consultor Wellson Ferreira avalia porque estes negócios deram certo – e quais riscos correram. Em comum, adiantamos algumas características: não pertencem a franquias, são enormes e por trás de cada um deles existe uma história empreendedora.


Por: Fran Oliveira • Fotos: Jaf




Assim que me vê, um jovem baixo, olhos castanhos-esverdeados, calça e camisa pretas, dirige-se até mim e se apresenta. “Eu sou o Denny”. Convida-me para subir ao segundo andar do salão Denny Art in Hair, senta-se em um sofá e vai logo dizendo: “Ninguém tem uma história como a minha!”.

Aos19 anos, o rapaz, batizado Denizart, fez um curso no Sindicato de Cabeleireiros de Ribeirão Preto incentivado pelo amigo que cortava seu cabelo. Depois desta primeira experiência, matriculou-se no curso de formação de profissionais do Soho, em São Paulo. Por três anos, todas as semanas, levantava cedo e pegava o ônibus com destino à Alameda Santos. Sempre dava um jeito de conseguir um canto para dormir. Só que um dia não deu tanta sorte. Denny vagava pela Avenida Brigadeiro Luis Antonio quando encontrou uma pensão barata. Olhando a cidade pela janela do ‘muquifo’, relembrava a infância e a adolescência difíceis passadas na roça, no canavial, como servente de pedreiro e office-boy.

Já deitado na cama e prestes a dormir, pensava em um dia ter o próprio negócio. Enquanto isso não acontecia, ia trabalhar muito. Quando ganhasse um salário de mil reais, sonho que alimentava dia-a-dia, casaria com a noiva Sidneia Aparecida. Três anos depois, Denny formou-se e conseguiu uma vaga de monitor no curso em que era recém-formado. Na mudança para São Paulo alojou-se em um apartamento que o salão usava como depósito. Ele não gastava com aluguel e passou a ganhar mil reais. Quatro meses depois, casou-se.

Há treze anos, Denny entrou no Soho do Portal do Morumbi. Alugou uma casa próxima. Em dois anos, tornou-se subgerente, viajou para Paris, conheceu outros estados e, já na condição de gerente, foi convidado para se tornar sócio de um Soho. Para isso, no entanto, precisava desembolsar R$ 225 mil. Os únicos bens que possuía eram um Astra quatro portas e o apartamento que pagava há seis anos.

Nas visitas à igreja Universal sempre lia uma passagem da Bíblia que diz “você deve ser cabeça e não cauda”. Ele sonhava em encarar o próprio negócio, mas não possuía dinheiro para investir. Numa atitude repentina, entregou seu carro no altar da igreja e pediu a Deus que fizesse algo diferente em sua vida.

A mudança começou de forma inesperada. Foi com pesar que Denny recebeu a notícia do fechamento do Soho do Portal. Estava sem carro e em breve estaria sem trabalho. Atendendo um cliente sério, que não permitia grandes liberdades, comentou: “os funcionários estão alvoroçados, não sabem o que fazer, pois o salão vai fechar”. Para sua surpresa, ele se manifestou:
- Vá ao meu escritório.
Semanas depois, estava frente a frente com seu cliente, que questionou:
- Quanto custa para montar aquele salão?
- Uns R$ 150 mil.
- Eu disponibilizo para você R$ 30 mil. Não quero cheque-caução, nem ser teu sócio, nem que assine nada. Quero que realize teu sonho. Imponho que não compre um carro melhor, não use o dinheiro para coisas supérfluas e não me pergunte porque estou fazendo isso porque nem eu sei.

Aquela conversa deixou Denny transtornado. Estava com duas perguntas na cabeça: “Como uma pessoa que não sabe nada da minha vida faz uma proposta dessas?” e “Como ia conseguir com R$ 30 mil?”.

Na conversa, uma frase do cliente ficou gravada em sua mente: “Na vida você escolhe: ou é rabo de baleia ou cabeça de sardinha”. Denny lembrou da passagem da Bíblia: “Você tem que ser cabeça e não cauda”... e tomou sua decisão:

- Cabeça de sardinha, é o que eu quero ser.

Com R$ 30 mil Denny não conseguiria comprar a estrutura do salão (por volta de R$ 100 mil) e ainda pagar o aluguel. Procurou dona Márcia, a dona do espaço, e contou sua história.

- Mas isso é um sinal de que este negócio tem que ser seu.

Dona Márcia comprou a estrutura do salão compensando com um reajuste no aluguel.

No dia 9 de setembro de 2006 o Soho do Portal fechou. No dia 23 de setembro Denny inaugurou o seu, ainda sem nome, apenas com uma faixa: “Nós continuamos aqui”. O nome veio depois, ideia da manicure Maria Mirtes, que pensou em separar o nome Denizart, que virou Denny Art. O nome, do qual muitos colegas tiravam sarro, acabou se tornando de grande serventia. No final do ano passado, Denny inaugurou um segundo salão no Real Parque. Lá quem fica é sua mulher, também formada cabeleireira.

O cliente sério, pela correria de seu trabalho, não foi mais cortar o cabelo com o Denny, mas sua esposa, sua filha e sua sogra frequentam o salão. Os R$ 30 mil estão sendo descontados em serviços.

POR QUE O SALÃO FEZ SUCESSO?
Todo negócio começa com um sonho; esse jovem sonhador tinha os temperos certos aos grandes empreendedores: TPM (Trabalho, Persistência e muita Motivação) para superar os obstáculos que a vida lhe ofereceu.

QUAIS RISCOS CORREU?
Montar um negócio baseado somente na fé é um risco que os grandes empresários não podem se dar ao luxo, mas felizmente ele encontrou um “tutor”, que, além de acreditar em seu sonho, lhe emprestou dinheiro e, com certeza, também uma boa orientação para tocar o negócio.


UM ADMINISTRADOR NO SALÃO


Carlos Schiliró Jr. é educado, fala com voz pausada. Ele mostra com detalhes o salão que passou recentemente por mãos de arquitetos e decoradores. No andar de cima, destacam-se frases referentes à beleza e cada uma das dez salas para tratamentos estéticos foi batizada com nomes de ícones como Boss, Gucci, Anna Pegova etc.

Carlos conseguiu seu primeiro emprego em um banco, através de um anúncio no jornal. Ele trabalhou na retaguarda de três bancos franceses e um nacional, sempre na área administrativa e de tecnologia. Formado em Economia, o empresário herdou a veia executiva do pai. No primeiro contato se sobressai uma característica: a obsessão pela qualidade nos processos de trabalho. O perfil racional o faz fugir das perguntas pessoais.

Schiliró é vaidoso e exala o perfume Ferrari. Veste-se discretamente, mas com elegância. “É preciso se apresentar bem”. No entanto, ele não sabe fazer hidratação nem manipular uma tesoura, mas para isso conta com profissionais treinados. Sua atuação se dá na gestão do negócio. Seu lado profissional pauta-se em um único objetivo: prestar o melhor serviço em busca da satisfação do cliente.

Depois de 30 anos dedicados a trabalhos em bancos, há dez anos Schiliró foi convidado para ser investidor de uma rede de salões. Na condição de investidor, não poderia opinar nem interferir na administração, mas ele tinha muitas ideias, queria mudar alguns processos para melhorar a qualidade. Passados alguns anos, decidiu, então, assumir dois salões, um no Morumbi, o LO Studio, e outro na Vila Nova Conceição.

Schiliró levanta cedo, faz exercícios na esteira, alguns aeróbicos e depois vai cuidar de sua agenda, pois ainda trabalha como consultor em estratégia, gestão e tecnologia para bancos e outras empresas. Para facilitar a vida faz uso do celular, computador e internet. À tarde dedica-se para o LO Studio, que hoje é uma das grandes prioridades em sua vida. Lá investe seu conhecimento de planejamento e gestão: conta com consultores técnicos e tem um departamento administrativo dotado de programa informático específico, cuja sala é decorada com um quadro florido feito por sua esposa, Roseli Schiliró.

Carlos é um administrador com habilidade em gestão e obstinado por metas. Ele faz planejamento semestral no LO Studio e realiza reuniões estratégicas com os cerca de 60 funcionários.

O empresário está sempre em busca de melhorias, por isso o salão passou recentemente por uma reforma. A decoração é jovem, descontraída e chique. As clientes podem degustar espumantes, diferentes tipos de café com opções de salgados, incluindo o famoso “pão de queijo da Rute”.

Há quatro anos, quando o empresário assumiu o LO Studio, ele teve que reavaliar sua forma de trabalho, pois não tinha nenhuma experiência neste ramo. Ele buscou orientações técnicas e estratégicas com profissionais de renome que trabalhavam há muitos anos na área e fez grandes amigos. Um deles disse um dia: “o melhor dos profissionais de beleza é que eles tornam as pessoas mais felizes pelo fato de torná-las mais belas”. Schiliró nunca havia pensado pelo lado da felicidade. Ele passou a entender que sua equipe proporciona isso diariamente.

Nos bancos ele estava sempre resolvendo problemas, mas com uma distância razoável dos usuários finais. Agora, com o LO Studio, o administrador mantém contato próximo com funcionários e clientes. Ele vive em constante processo de reciclagem.

POR QUE O SALÃO FEZ SUCESSO?
No universo dos salões de beleza, um gestor com visão aguçada do futuro do negócio pode fazer maravilhas em um ramo que cuida pouco da gestão corporativa. O Carlos trouxe competência administrativa para sua empresa e aprendeu a valorizar seu cliente interno (equipe) e seu cliente externo com qualidade máxima ao serviço.

QUAIS RISCOS CORREU?
No início do negócio, por ter entrado apenas como investidor, desconhecendo um ramo de atividade com particularidades que só quem vive dentro dele conhece.


EM BUSCA DOS SONHOS



Adriana Lara está sempre de alto astral, é expansiva, bonita, mantém as unhas impecavelmente pintadas e recentemente fez um corte chanel nas loiras madeixas. A jovem empreendedora emoldurou todas as matérias que saíram sobre o Breeze Studio e colocou sobre uma mesa de vidro na entrada no salão. O espaço é amplo, com uma decoração que une o moderno com o clássico, perceptível em detalhes como a barbea¬ria temática feita com objetos garimpados em antiquários. Apesar de Adriana testar nos cabelos todos os produtos oferecidos pelo salão (exceto de alisamentos, pois já possui cabelos lisos) sua competência é marketing. Formada em Comércio Exterior, pós-graduada em Marketing com especialização em Gestão por Competência na ESPM, a jovem empreendedora foi supervisora nacional de vendas da Ripasa Papel e Celulose, onde supervisionava 42 pessoas do telemarketing ativo e passivo. Durante três anos dedicou cerca de 14 horas do seu dia ao trabalho. Até que se questionou: - Onde está minha qualidade de vida? E os meus sonhos? Nem mesmo conseguia ir a uma academia, pois entrava no trabalho às sete da manhã e nunca conseguia sair antes das sete da noite. Mesmo com a carreira em ascensão, havia um vazio que só poderia ser preenchido pelo sonho de ser mãe, que ia de encontro a um cenário de correria. Deu um basta, chorou uma semana, mas saiu do trabalho. Quatro meses depois engravidou e viu seu sonho crescer dia-a-dia. Após o nascimento da filha, Isabelle, Adriana prestou consultoria para um salão de beleza e conseguiu, dentro de 45 dias, aumentar o faturamento em 35%, sem que o empresário tivesse colocado a mão no bolso. Sua principal estratégia foi mostrar a importância de oferecer mais serviços aos clientes, além daquele que ele foi procurar. Com o passar dos anos, um novo sonho começou a nascer, o de ter o próprio salão. Junto com as sócias Luciana Raposo – de quem é madrinha de casamento – e Eliana Laganaro inaugurou o Breeze em novembro de 2008. As três sócias estão remando juntas e têm planos para o futuro, como abrir franquias e implementar novidades, como o Breeze Studio Eventos, esta última contada apenas por e-mail, dias depois da entrevista. Agora, além de ser um espaço de beleza, o Breeze é também um espaço para eventos ligados a Beleza, Moda e Confraternização.

POR QUE O SALÃO FEZ SUCESSO?
Quando uma pessoa se dispõe a ter maior qualidade de vida, pois está insatisfeita com a vida que leva, já tem 50% de chance de encontrar o sucesso. Ao unir isso com competência em gerir pessoas, digo que já superou os outros 50%. A necessidade humana de se obter satisfação pessoal e profissional faz com que supere qualquer obstáculo.

QUAIS RISCOS CORREU?
O maior risco que vejo foi largar uma carreira promissora em uma grande empresa, mas quantos já não fizeram isso e se deram bem, então, os riscos valeram a pena.


NA CORRERIA


Adriana Brunelli anda na moda. No dia da entrevista me recebeu com calça preta colada estilo saruê, camiseta preta, lenço dourado ao pescoço e, na mão esquerda, um anel com as palavras “Amor para sempre” dado pelo marido, Luiz. No dia da foto, fez uma megaprodução com um lindo vestido preto. A empresária é agitada e raras coisas a deixam de mau humor. Agora, por conta da gravidez de nove meses, está acordando mais tarde, dá um sono. Na medida em que toma dois cafés expressos com adoçante, fala de seus amores: o marido, Luiz, e os filhos, Bruno e o bebê que está por nascer. Enquanto conversávamos, um engenheiro liga. Ela diz que a documentação vai ficar na recepção do salão. Há pouco tempo conseguiu o Habite-se da construção, mas ainda está ocupada com arquitetos e bombeiros, além de ultrassons. Ela montará uma espécie de shopping da beleza, um prédio de dois andares e mezanino, que abrigará seu atual salão, o Image Hair, e outras lojas ligadas à área da beleza, como butiques de roupas e acessórios, spa, podólogos, fisioterapeutas, barbearia, academia, café e lava-rápido. A sempre bem-humorada Adriana iniciou sua carreira como booker em agência de modelos. Quando fez 21 anos montou a Mondiale, uma agência de atores e modelos publicitários. Sua paixão pelo mundo da beleza a levou para outro negócio: salão. Adriana montou o Image Hair há seis anos no Morumbi. Seu papel é administrar e cuidar do relacionamento, batendo papo com as clientes. Ela tem o dom de se comunicar. Como a empresária vive procurando atividades, montou outra agência de modelos, a Angels, em Sorocaba, e ainda arruma tempo para colocar o filho Bruno na perua escolar, organizar a agenda e comprar roupinhas para o nenê. Invariavelmente, os amigos a questionam como consegue concentrar tantas atividades, ainda mais na gravidez. Adriana não pensa muito nisso, ela tem um pique inesgotável. Enquanto a empresária falava sobre os pacotes de beleza do Image, uma cliente sai do salão e deseja: - Dri, tenha uma boa hora. Adriana levanta a blusa e coloca a mão sobre a barriga redonda. Volta à conversa. “Dentro dessa loucura toda, o que mais gosto é de fazer utrassom para ver a carinha dela”. Em tempo: Adriana deu à luz em 22 de maio no Hospital São Luiz. É uma linda menina, Pietra.

POR QUE O SALÃO FEZ SUCESSO?
A Adriana já vivia no mundo da beleza, e, por isso, foi mais fácil entender as nuances do negócio. Juntando uma pitada de gestão administrativa, tino comercial e gestão humana, ela fez a receita do sucesso em um ramo de atividade concorridíssimo, onde somente com grande competência é possível sobressair.

QUAIS RISCOS CORREU?
A juventude sempre vem aliada a uma dose de ingenuidade e maturidade, mas nesse caso veio aliada a muita disposição e desejo de superação, que são inerentes aos grandes administradores. Consultor em beleza Wellson Ferreira, nesta matéria, deu as dicas valiosíssimas sobre o empreendedorismo na área de beleza. O consultor de negócios, antes mesmo de começar a graduação em Ciências Contábeis e Gestão de Marketing, já possuía o próprio escritório de contabilidade, que, além de outros clientes, prestava assessoria para o Soho. A partir desta experiência, resolveu montar o próprio salão e lá se vão mais de 20 anos neste ramo. O empresário chegou a ter quatro salões, mais de 100 funcionários e desenvolveu um sistema de gerenciamento para salões de beleza (software) chamado Hair System, que atendia aproximadamente 550 clientes pelo Brasil. Aos poucos, Wellson foi se tornando um consultor para quem pretendia abrir a própria empresa. Para isso, foi em busca de formação e cursos, é formado também em Psicologia aplicada a negócios e possui formação em Coach (desenvolvimento de competências) pelo ICI – Internacional Coaching Institute (Certificado pela Federação Internacional de Coach USA). Hoje Wellson tem mais uma empresa, a Avanto, que trabalha com educação empresarial, atuando na área de treinamentos e consultoria comportamental, ajudando os empresários a desenvolverem todo o seu potencial para administrar os negócios e a própria vida. O empresário-consultor diz que o sucesso no negócio possui uma fórmula: “gestão administrativa, financeira e pessoas de confiança ao lado do empreendedor” ajudando-o a tocar a empresa.





CONSULTOR EM BELEZA

Wellson Ferreira, nesta matéria, deu as dicas valiosíssimas sobre o empreendedorismo na área de beleza. O consultor de negócios, antes mesmo de começar a graduação em Ciências Contábeis e Gestão de Marketing, já possuía o próprio escritório de contabilidade, que, além de outros clientes, prestava assessoria para o Soho. A partir desta experiência, resolveu montar o próprio salão e lá se vão mais de 20 anos neste ramo.

O empresário chegou a ter quatro salões, mais de 100 funcionários e desenvolveu um sistema de gerenciamento para salões de beleza (software) chamado Hair System, que atendia aproximadamente 550 clientes pelo Brasil. Aos poucos, Wellson foi se tornando um consultor para quem pretendia abrir a própria empresa. Para isso, foi em busca de formação e cursos, é formado também em Psicologia aplicada a negócios e possui formação em Coach (desenvolvimento de competências) pelo ICI – Internacional Coaching Institute (Certificado pela Federação Internacional de Coach USA). Hoje Wellson tem mais uma empresa, a Avanto, que trabalha com educação empresarial, atuando na área de treinamentos e consultoria comportamental, ajudando os empresários a desenvolverem todo o seu potencial para administrar os negócios e a própria vida. O empresário-consultor diz que o sucesso no negócio possui uma fórmula: “gestão administrativa, financeira e pessoas de confiança ao lado do empreendedor” ajudando-o a tocar a empresa.