Por Fran Oliveira
Verônica tem 74 anos e dança balé; Cecília, com 86, está à frente de um grupo social e Henrique, no auge de seus 82 anos, leciona xadrez. Essa turma vem mostrar que, no Brasil, as pessoas da “melhor idade” têm mais qualidade de vida e energia para transformar o espaço onde vivem.
NA PONTA DOS PÉS
Verônica Coutinho escolhe um CD com músicas de balé para dar aulas às suas alunas na Cia das A’artes. De sapatilhas rosadas, vestida de bailarina, corpo firme e movimentos suaves ela demonstra, com graça, os passos a serem executados. A dança é a vida de Verônica desde que ela fez sua primeira aula, aos 12 anos, no Rio de Janeiro, onde nasceu. Hoje, aos 74, mantém uma agenda atribulada devido aos compromissos profissionais.
Ao chegar em casa depois da última aula, Verônica se depara com suas inúmeras fotografias dispostas na parede. São retratos que contam a história de sua vida: dança, amigos, família. Antes de se preparar para dormir faz uma refeição leve, composta apenas de líquidos, pois há muito tempo não ingere sólidos depois das sete horas da noite. A casa está vazia, um grande silêncio. A bailarina segura a aliança, presa no pescoço por um colar de bolinhas douradas e brancas. Há cinco meses perdeu seu companheiro de mais de 50 anos, Helanor Coutinho, grande jogador de basquete.
Verônica conheceu Helanor ainda na adolescência. Ambos iam para os bailes de carnaval como par. Ela sempre adorou dançar, tanto que se matriculou para assistir aulas de balé com a irmã de Helanor em Niterói. A partir daí, não deixou mais o balé e ainda lembra-se com detalhes de sua primeira apresentação profissional. Ela chegara de táxi com toda a família no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O pai, Alcindo, carregava seu vestido branco de tule, a mãe e as irmãs a acompanhavam excitadas. No palco a bailarina brilhou graciosa dançando a coreografia “Les Sylphides”.
Verônica se casou aos 20 anos e logo depois teve seu primeiro filho, seguido por outros três. Por uns tempos parava de dançar para cuidar da família, mas sempre retornava à dança. Uma maneira que achou para continuar exercendo as duas atividades foi ser professora de balé. Em 1969 montou a primeira turma de balé do Clube Paineiras, chegando a dar aulas para 600 alunas. Nessa época, o clube estava montando turmas esportivas e todos queriam ajudar de alguma maneira.
Em 1973, abriu a escola “Amanda e Verônica Ballet”. A sociedade durou 23 anos. Depois disso, Verônica tocou a escola sozinha, e logo depois montou uma companhia de bailarinos profissionais com as sócias Vera Moura Andrade, Ana Cecília Americano e Daisy Fasano. Para complementar seu currículo, recebeu, em 1994, a Comenda da UNESCO por serviços prestados à dança, título dado para 15 bailarinos do mundo a cada dois anos. Pelo seu belo trabalho também foi congratulada com o título de “Maître de Ballet” pelo Sindicato dos Profissionais de Dança do Estado do Rio de Janeiro.
Sempre que suas alunas fazem uma apresentação importante, Verônica relembra sua última performance no palco. Curiosamente, “Les Sylphides” foi o primeiro e o último balé que dançou. Mesmo com pouca visão no olho direito, os movimentos eram precisos e, no fundo, ela sabia que aquele seria seu último balé porque precisava cuidar de sua família.
Agora, com os filhos criados – todos atuando na área esportiva ou na dança – Verônica dedica-se às suas aulas e aos seus hobbies. Ela faz parte de um grupo de amigas que se reúnem para um carteado todos os sábados no Paineiras, isso já há 30 anos. Elas chegam cedo, almoçam no clube, conversam e se divertem.
Durante a semana, quando retoma as aulas, Verônica monta com suas alunas o balé “Les Sylphides” para ser apresentado em dezembro, o que lhe traz um gosto doce de um passado não tão distante.
SEDE DE APRENDIZAGEM
Depois que saiu de uma enorme casa, cheia de janelas, na Av. Dr. Arnaldo e mudou-se para o Portal do Morumbi com o marido Vicente d’Amato, Cecília, junto com outras senhoras do condomínio, fundou o GASP – Grupo de Assistência Social do Portal do Morumbi. Uma das primeiras ações do Grupo, como uma maneira de auxiliar os funcionários, foi a criação do Bazar da Pechincha. Os produtos eram dispostos em araras, numa sala do condomínio, e os funcionários podiam comprar a preço irrisório e parcelado.
A administração do Portal, aprovando o trabalho desenvolvido, passou a trabalhar em conjunto. Dentre outras ações para os 300 funcionários, o grupo prepara enxovais para recém-nascidos, distribui kits de material escolar, cestas de Natal, brinquedos; faz empréstimo emergencial, realiza a Feira de Artesanato e uma festa de confraternização no final do ano.
A idéia de montar o Grupo surgiu por incentivo de senhoras que trabalhavam na área de assistência social. A maioria das fundadoras atua até hoje, como Cecília d’Amato, 86 anos, que na época fazia parte do Clube de Mães dos Rotarianos.
Pouco tempo depois que o casal d’Amato chegou ao Portal, Vicente foi convidado para ser diretor social. Como a época era de crise, não havia dinheiro para implementar projetos. Mas Cecília teve uma idéia. Juntou 200 livros de uma biblioteca circulante organizada por uma moradora que mudou-se para o exterior e falou para Vicente: “Vou montar uma biblioteca”. Arrumaram espaço no clube, pediram livros aos moradores e foram montando a biblioteca que hoje conta com 8 mil exemplares atualizados periodicamente. Devido à falta de espaço, quando são oferecidos livros que já fazem parte do acervo, Cecília os repassa para outras bibliotecas, inclusive para uma de Paraisópolis.
Aos 86 anos, Cecília mantém um aprendizado constante. Junto com 18 amigas, há dez anos faz uma faculdade para “jovens” de terceira idade, a FAMA – Faculdade Aberta da Maturidade Ativa. Mas a busca pelo aprendizado não pára, ela conta que as pessoas mais velhas que não se inteiram das novidades correm o risco de se tornarem analfabetas. Até usar o computador Cecília aprendeu e adora jogar Sudoku depois que chega da aula de hidroginástica. Cecília é mesmo muito animada, e procura não se sentir só desde a morte do marido, há 15 anos. Pelo menos uma vez por mês, junto com um grupo de moradoras, vai ao teatro e se diverte com as peças encenadas no palco.
A VIDA É UM JOGO
Nascido em Berlim, Henrique Schramm veio para o Brasil em 1936, com nove anos. Os pais, judeus, vieram como refugiados. A fuga de João e Joana foi resolvida em questão de horas. João recebeu a informação de que ele e sua esposa Joana seriam presos. Abandonaram negócio, dinheiro no banco, a casa e pegaram o primeiro trem que saiu de Berlim para salvarem as próprias vidas e a do filho Henrique.
Em 1913, João, ainda solteiro, foi enviado para o Brasil como representante de uma grande empresa de importação e exportação. Ele morou em Porto Alegre, sede da firma, e quando voltou para a Alemanha, em 1919, depois da Primeira Guerra Mundial, se tornou amigo do embaixador brasileiro na Alemanha. Ele era uma das poucas pessoas em Berlim que falavam português. Então, na ocasião em que todos tinham dificuldade de achar um país que desse o visto para sair da Alemanha, João conseguiu viajar para o Brasil, pela amizade feita com o diplomata brasileiro.
Henrique, o ‘rei’ desta história, sempre que podia, acompanhava a mãe nos serviços sociais que ela passou a desenvolver no Brasil. Joana preparava a documentação dos refugiados de guerra recém-chegados. Numa leva desses novos imigrantes, chegou Lea, hoje ‘dama’ de Henrique.
O jovem imigrante formou-se engenheiro pela Escola Politécnica em 1956 e, paralelamente à vida profissional de engenheiro, sempre dedicou algumas horas semanais ao ensino e ao xadrez. Começou como professor para ganhar um dinheirinho quando ainda era estudante da Poli. Deu aula no Colégio Oswaldo Cruz, depois no Curso Anglo-Latino, depois na própria Politécnica e posteriormente foi convidado pelo governo do Estado para ser o primeiro diretor da então recém-fundada FATEC, onde organizou os primeiros cursos e selecionou o primeiro corpo de professores.
Desde a adolescência, Henrique foi ligado ao esporte, chegou a jogar na seleção universitária de futebol e foi juiz de futebol, mas sua grande paixão sempre foi o xadrez, participou de vários campeonatos e ganhou prêmios. Foi vice-campeão paulista por equipe em 1951 e terceiro lugar no campeonato brasileiro de veteranos em 1988, além de ser ligado ao Clube de Xadrez de São Paulo, onde exerceu inúmeras atividades desde conselheiro a diretor.
Há dois anos, tomando conhecimento de uma metodologia moderna de ensino de xadrez criada na Holanda, Henrique se entusiasmou e passou a dar aulas de xadrez em vários colégios do Morumbi e no projeto “Comunidade”, do Hospital Albert Einstein, que atende crianças de Paraisópolis. Hoje o xadrez é universalmente aceito como uma ferramenta de desenvolvimento intelectual. Assim como a Educação Física aprimora o corpo, o xadrez trabalha com o desenvolvimento intelectual e melhora o comportamento.
Um momento em que Henrique se viu desprotegido de seus peões, bispos e cavalos foi em sua volta a Berlim, há 20 anos, convidado por um programa da prefeitura que levou à cidade alemã os perseguidos pelo nazismo. Ele visitou lugares importantes, o Museu do Holocausto, teatros, mas não pôde conter as lágrimas ao rever a escola da sua infância e relembrou o primeiro dia de aula, quando ganhou um pacote de bombons, como era costume em Berlim.
Segundo dados do IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2025 o Brasil deverá ter a sexta população mais idosa do planeta, com 34 milhões de pessoas com mais de 60 anos.
NÓS E O TEMPO
Há alguns anos Cristiane D’andrea saiu com uma pasta embaixo do braço e foi atrás de investidores para apresentar um projeto inédito: um centro de vivência 5 estrelas para a maturidade que unia hotelaria, saúde e lazer no mesmo local. Em 2007 concretizou seu sonho com a inauguração do Hiléa, planejado para atender um público diferenciado. Na entrada, a gentileza dos profissionais conduz a uma sala de estar e a um sofisticado restaurante aberto ao público. Nos 11 andares se distribuem consultórios médicos, espaços de convivência e lazer e os apartamentos dos residentes fixos. Os quartos nada lembram os de um hospital. Possuem TV com tela plana e os acessórios hospitalares são camuflados ou mesmo escondidos atrás de quadros floridos. Os moradores, assim como aqueles que apenas passam o dia no local, usufruem das atividades planejadas, fazem hidroginástica, jogam xadrez e carteado, tomam sol no jardim – que lembra um quintal familiar com as pitangas em flor – e passeiam nas imediações do bairro, como Parque Burle Marx, além de fazerem compras no supermercado. Mas o que mais chama atenção no Hiléa é uma praça vivenciada pelas pessoas que sofrem de Alzheimer. Nela, a barbearia, o cinema, a loja de roupas e a atmosfera remetem aos anos 40 e 50 para auxiliar no exercício de memorização, reinventando a vida de cada indivíduo, que é única em sua história.