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EDITORIAL

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UM MÉDICO DE VANGUARDA


por Francilene Oliveira

Rafael preparava-se para a maior mudança de sua vida, pois deixaria o ambiente confortável e seguro em que se encontrava para ir ao encontro do desconhecido. Desejava uma viagem tranqüila e que sua recepção pelas pessoas que já amava pelo som das vozes e por um laço inexplicável fosse hospitaleira e acolhedora. De outro lado, Fabiane aguardava na sala de parto do Hospital e Maternidade São Luiz. Uma música relaxante tocava ao fundo, o ambiente permanecia à meia-luz e ao seu lado encontrava-se seu marido, David, e seu sogro, Claudio Basbaum. Rafael, assim que nasceu, foi direto para o colo da mãe onde permaneceu refazendo-se do susto e tentando assimilar sua nova realidade. Tudo era uma experiência nova e, com fome, passou a sugar o seio materno.
Vozes conhecidas soavam baixinho ao seu lado quando mãos carinhosas o seguraram. Chorou quando sentiu seu corpo imerso num líquido transparente, mas cuja temperatura era agradável. O pai, David, dava o primeiro banho no filho, ali mesmo na sala de parto, enquanto era observado pela emocionada Fabiane. Basbaum, que nesse dia assistia o parto pelo método Leboyer, que ele mesmo trouxe ao Brasil na década de 1970, ajudou o filho e complementou o ritual. Ele deu o dedo de David para o bebê sugar despertando no pai uma série de sensações e sentimentos profundos, tão iguais quando do nascimento de sua primeira filha, Bruna.

O ginecologista-obstetra Claudio Basbaum, há mais de trinta anos, rompeu com paradigmas vigentes na medicina devido à sua paixão pelo ser humano e sua visão generosa sobre o relacionamento de mães com seus bebês. Há algum tempo, ouviu de um amigo médico: “Existem três tipos de médico: o que nasceu médico; o que estudou medicina e o que nasceu médico e teve a felicidade de estudar medicina. Você é o terceiro deles”. Basbaum, com seu jeito meticuloso, trabalha como quem se inspira para um quadro ou compõe uma música, dando o seu melhor, mas sem se considerar Deus.

Pernambucano e filho do empresário Naum, Basbaum tinha tudo para seguir a carreira do pai, mas certo dia ouviu dele: “Faça o que achar que deve ser feito, mas procure fazer o melhor”. No final de 1957, tomou sua decisão: foi fazer Medicina na Universidade do Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco.
Assim que concluiu o curso, o jovem médico veio complementar sua formação em São Paulo, no Hospital das Clínicas. Sua curiosidade o levou a se especializar, em 1966, no Hôpital Brocca, ligado à Universidade de Paris, onde estagiou com o “papa” da laparoscopia – o professor Raoul Palmer, adquiriu conhecimentos inovadores e desenvolveu técnicas humanistas.

De volta ao Brasil, certo dia, Basbaum, lendo uma revista francesa, fixou-se em um artigo escrito por um médico francês que estava revolucionando as condições de nascimento. Era Frédérick Leboyer, autor de “Pour une naissance sans violence” – “Nascer Sorrindo”, na edição brasileira. Leboyer, na época, era chefe de clínica e tinha uma vida atribulada. À procura de tranqüilidade, ele foi à Índia onde entrou em contato com técnicas regressivas. O médico reviveu as sensações de nascimento e concluiu que nascer era uma experiência impactante.

As palavras de Leboyer mudaram a vida pessoal e profissional de Basbaum, que passou a fazer partos utilizando o conceito de respeito ao nascimento, de direito ao aconchego da mãe e abolindo a estimulação desnecessária dos tapinhas. Suas experiências não foram bem recebidas por todos e ele foi proibido de atuar em um dos principais hospitais do país quando colocou um pai para dentro da sala de parto. Sua técnica incluía também que o bebê fosse imediatamente para o colo da mãe para receber aconchego e mamar. A importância do ato de amamentação nos primeiros minutos só foi reconhecida muitos anos depois pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

Com pouco mais de um mês de nascido, Rafael, aos poucos se adapta ao novo mundo. No dia 16 de setembro fez uma visita inesperada ao avô Basbaum porque sua babá falhou o compromisso com a mãe Fabiane. Na presença dos netos, o avô, apesar de cansado com a rotina de cirurgias diárias, derrama-se em paparicos e tem certeza de que Rafael terá um desenvolvimento psíquico saudável com o carinho que recebe desde o nascimento.

A atenção às necessidades naturais da mulher e a busca de segurança, paz e harmonia tornaram Basbaum uma figura pública procurada por artistas, intelectuais e formadores de opinião. Ele utilizou o método Leboyer em Baby do Brasil, Elis Regina e Maria Rita, que buscaram transformar o nascimento em uma experiência única e rica em emoção.

Aos poucos, Basbaum procurou complementos para o método Leboyer, como o parto de cócoras, que conheceu ao visitar reservas indígenas das tribos Kaingangues e Guaranis, no Paraná, observando que era a melhor posição para parir. A isso foram acrescidas as idéias, divulgadas por Frédérick Leboyer, da Shantala – arte tradicional de massagem para bebês trazida da Índia por ele em 1976. Basbaum reuniu profissionais de várias áreas, como professores de educação física, de ioga, pediatras e psicólogos dentro de um conceito então novo de atendimento integral à gestante. Preparava-as não apenas para o parto, mas também para o nascimento.

Basbaum costuma dizer que obstretícia é verso e ginecologia é prosa, mas nesta área trabalha também com uma medicina minimamente invasiva em que o profissional é parceiro, cúmplice, repensa a autonomia da mulher sobre o corpo e oferece informações sobre tratamentos não-mutilantes, respeitando a mulher física e emocionalmente. O inquieto médico foi um dos introdutores da laparoscopia no país. E, mais tarde, das evoluções desta, a videolaparoscopia e a videohisteroscopia, feitas com tecnologia que respeita os órgãos genitais femininos.

Incansável, Basbaum continuou inovando. Ele fundou a Pró-Matrix (Unidade de Orientação, Preservação e Tratamento da Mulher) e lançou a campanha “Mulheres, salvem seus úteros”, com uma mensagem educativa a fim de evitar cirurgias desnecessárias impedindo o que chama de “mutilação”. O médico associou-se também a outros especialistas para criar a unidade Utherus, parte integrante de uma equipe internacional multidisciplinar que pesquisa o tratamento de miomas uterinos.

Por conta de seu trabalho, Basbaum foi citado por uma revista da área da saúde como um dos 2.000 médicos mais admirados do Brasil. Uma admiração que pode ser vista nos olhos dos netos Bruna e Rafael ao se depararem com o avô.

O “CHAMADO” MÉDICO

Sentada no sofá da recepção da clínica Ágape, no Medical Center, aguardo a entrevista com o Dr. Gerson Gomes da Silva. Foi difícil conseguir um horário devido a sua agenda lotada. Quando ele chegou de jaleco branco e deu “boa tarde”, seu rosto estampava um sorriso simpático, e eu pensei: “ele tem cara de médico”.
Meu pensamento daquele dia era o mesmo dos amigos de Gerson quando ele era professor de Educação Física e buscava conhecimento sobre fisiologia do esforço. Na época, ele trabalhava com atletas de nível olímpico e buscava respostas que melhorassem o condicionamento físico de seus ‘pupilos’. Nessa busca, ele ouvia sempre dos amigos: “você tem que ser médico”. Um dia, participando de uma oração – Dr. Gerson é protestante – ouviu de quem estava ao seu lado: “você será médico”. A partir daí, redirecionou seu caminho.

O gastroenterologista e cirurgião do aparelho digestivo Dr. Gerson torna-se amigo de seus pacientes devido ao tratamento que dá a eles, de preocupação verdadeira. A sensação de acolhimento vem desde a carinhosa recepção de Cínthia até o genuíno interesse pela vida da pessoa. Ele trabalha com acolhimento, pois entende que se o paciente encontra no consultório médico um ambiente onde não haja tranqüilidade, respeito, amor e dedicação, em vez de ajudá-lo, a ida ao médico agravará ainda mais seu nível de estresse.

Por mais de uma hora, tempo médio da consulta, Gerson quebra o gelo inicial e faz uma investigação precisa e perspicaz: Você teve doenças de infância? Pratica atividades físicas? Como se alimenta? Tem uma dieta equilibrada? Você é ansioso? Depressivo? Equilibrado? Trabalha sob tensão? Respeita as férias? Pratica atividades extraprofissionais?... Foi numa conversa assim que Dr. Gerson surpreendeu o professor da USP José de Angelis.
José de Angelis andava um tanto triste quando foi encaminhado ao Dr. Gerson com diagnóstico de hérnia. Gerson o acalmou, pois tratava-se de uma intervenção simples, mas dentro de sua medicina humanista e investigativa continuou a conversa com o paciente. José de Angelis queria falar sobre a cirurgia, mas Gerson foi obtendo mais informações e pediu exames adicionais. O paciente achou o procedimento desnecessário, pois o diagnóstico foi preciso.
Qual não foi sua surpresa ao descobrir que hérnia era o menor de seus problemas. O exame revelou um tumor de 10 x 15 cm no intestino.

Na consulta seguinte, Dr. Gerson tranqüilizou de Angelis e marcou a cirurgia para os próximos dias, início de dezembro de 2001. Como faz costumeiramente, se empenhou nos arranjos administrativos com o convênio e o hospital, como se fosse membro da família. A cirurgia foi um sucesso e uma vida foi salva devido a realização de uma medicina humanizada.

Uma prática comum dentro da medicina do Dr. Gerson é a investigação familiar. Certa vez, ao examinar um paciente e detectar câncer em uma fase precoce, solicitou que o paciente orientasse a família a fazer exames. Ele acabou descobrindo outros dois casos ainda precoces na mesma família numa fase factível de tratamento e cura.
Dr. Gerson vê no paciente pelo menos três “corpos”: o físico, o mental e o espiritual e para entendê-los é preciso fazer uma consulta diferente. Esse entendimento fez com que fosse convidado para fazer o projeto AMA a ser desenvolvido nos hospitais públicos de São Paulo.

Enquanto observo a sala, escuto, atenta, as palavras do Dr. Gerson que saem com fluidez. Observo um quadro pendurado na parede e volto minha atenção para anotar algumas de suas idéias: “a medicina praticada em São Paulo, falo com toda certeza, é uma das melhores do planeta porque o profissional brasileiro tem essa característica humana. Ele é acolhedor, hospitaleiro, se desdobra para ser solícito, dar atenção”.
Talvez seja por isso que Dr. Gerson tem pacientes que vêm da China, Camboja, Alemanha, Portugal e África para uma consulta. Eles vêm porque querem atenção, respeito, ser amados, querem ser cuidados e ouvidos.

No entanto, a prática de uma medicina mais humanizada não é regra geral. Não porque os médicos não queiram, mas por um problema complexo que envolve muitos fatores. Um deles é que conhecer o paciente demanda tempo e a maioria dos profissionais trabalha com convênio médico, cujo valor da consulta em média é de R$ 40, o que não permite cobrir seus custos, obrigando a ter vários empregos, diluindo seu tempo.

Mas nesta relação, os pacientes também cometem seus pecados. Não são raros os casos que chegam de pacientes querendo mostrar ao médico um exame que fizeram por conta própria no laboratório. Por vezes, Gerson tem que interrompê-los dizendo amigavelmente: “antes de ver o exame, gostaria de conhecer você, porque eu não vou tratar o exame, vou tratar você”. Só depois de uma investigação mais detalhada, Gerson pode dizer em que, e se, o exame é útil.

Ao terminar nossa conversa, Dr. Gerson me mostra o quadro pendurado na parede da sala. Ele foi dado por Artur, um de seus pacientes. O médico já recebeu presentes caríssimos, mas o de Arthur ganhou lugar cativo em seu consultório e em seu coração. Sua relação com o paciente extrapolou o profissional para a amizade. Arthur, numa demonstração de sua gratidão, descreveu-o nestas palavras que se sobressaem na parede: “Dr. Gerson, bendita é a tua caminhada, pois tu andas para ajudar os necessitados. Benditas são as tuas palavras, porque fortalecem e animam os mais fracos. Feliz é o teu futuro porque no teu presente te alegras em ajudar a quem precisa. Bendita é a tua inteligência porque a utilizas para o teu bem e o das outras pessoas. Abençoado é o teu silêncio, pois por meio dele tu te doas em atenção e afeto a quem precisa ser ouvido. Grandiosa é a tua prece, porque, sendo justa e digna, é logo atendida pelo Senhor. Bendito os teus sentimentos porque conservam a fé e a certeza em nosso Deus. Felizes os teus pensamentos que se edificam e te preservam na espiritualidade. Urgentes são as tuas atitudes porque delas dependem os que necessitam de ti. Seguros são todos os teus passos. O Senhor os acompanha com o Seu olhar. Sagrada seja toda a tua vida. Ass.: Artur”.

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